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sexta-feira, 25 de maio de 2018

SEI QUE ALGURES...




Sei que algures, neste próprio momento, está uma mulher à minha espera e que se proceder muito calmamente, muito suavemente, muito lentamente, chegarei junto dela. Estará talvez à espera numa esquina e, quando eu aparecer, reconhecer-me-á. Reconhecer-me-á imediatamente. Acredito nisso, assim Deus me ajude como acredito! Acredito que tudo é justo e foi tudo determinado. A minha casa? Ora, é o mundo, o mundo inteiro! Estou em casa em toda a parte; agora sei-o, mas não o sabia.

Henry Miller, Trópico de Capricórnio.


sexta-feira, 18 de maio de 2018

O SHEMÁ DA PSICANÁLISE



Tendo a psicanálise surgido como resultado das investigações médicas de um neurologista judeu, eu não estaria enganado se evocasse certo aspecto concernente à história religiosa dos israelitas no intuito de tentar entender a contribuição de seu criador. Mesmo que Sigmund Freud fosse ateu por convicção, ainda assim devemos admitir que determinadas características da tradição de um indivíduo não desaparecem tão facilmente, sobretudo quando nos referimos a uma tradição marcante como a judaica. Isso talvez até ele próprio fosse capaz de concordar, considerando o fato de que escreveu uma análise importante sobre Moisés, e a si mesmo muitas vezes se identificou com esse personagem bíblico. Mas a que vem essa observação? Trata-se de compreender a existência de características religiosas no processo da psicanálise, características essas que foram provavelmente secularizadas pelo labor científico de Freud, e que, no entanto, podem ser identificadas pelo escrutínio atento de um bom estudioso. Provavelmente, não chegaremos a discernir isso se nos cegarmos por qualquer visão ideológica acerca da psicanálise. Não se tenciona aqui batizar o trabalho intelectual de Freud nas águas sacras da argumentação espiritual, porém sim descobrir as origens mais remotas de aspectos marcantes no processo analítico.

Um desses aspectos consiste na questão da fala ou, melhor dizendo, da cura através da fala. Com o expediente da livre associação, o analisando manifesta-se verbalmente, dando assim a oportunidade ao psicanalista de identificar em seu discurso elementos do inconsciente que se revelam espontaneamente. O que se encontra oculto, ou seja, aquilo que em muitas ocasiões é a origem de transtornos psicológicos, acaba sendo trazido à superfície, dessa maneira oferecendo ao analista a chance de interpretar a personalidade do sujeito. Trata-se de um processo criado por Freud depois de ter buscado acessar as verdades enterradas no inconsciente por meio da hipnoterapia, por exemplo, e de outros métodos que não se mostraram tão eficazes. Na posição de ouvinte, o psicanalista atenta-se aos vestígios da realidade obscura que se camufla sob as palavras, na tentativa de decifrar de modo competente as estruturas psíquicas daquele que ali está submetido à análise. Portanto, estabelece-se uma relação em que duas posições distintas se completam: aquela do indivíduo que fala utilizando-se com isso da livre associação e a outra do psicanalista que escuta fazendo uso dos instrumentos técnicos que possui.

Pode-se relacionar isso com algo da tradição judaica? De uma forma bastante liberal, evoco a conhecida sentença hebraica Shemá Israel, cuja tradução é Ouve, Israel. O ato de ouvir é algo essencial dentro da cultura dos judeus, em princípio no que tange a ouvir as palavras divinas – neste caso, o indivíduo se coloca na posição de escutar passivamente tudo aquilo que Deus lhe diz –, e em segunda instância na transmissão dos ensinamentos que acontece através da oralidade, ou seja, é falando que um judeu transfere ao outro a verdade de sua religião. Usei o termo verdade, e ele se aplica aqui muitíssimo bem, porque para o judaísmo o Senhor representa justamente a verdade, não uma verdade entre muitas, mas sim a verdade única, oriunda de um Deus único. Quando observamos o shema no âmbito da psicanálise, entendemos que o ato de falar, próprio do analisando, transmite também a verdade de seu interior. Essa analogia talvez pareça contraditória se considerarmos que muito frequentemente na história da psicanálise parece ter havido certa indisposição entre suas principais teorias e os ensinamentos das religiões instituídas, no entanto, nem sempre é assim tão necessário colocar psicanálise e religião em conflito. De fato, nas conferências realizadas na Universidade católica de Bruxelas, Jacques Lacan afirma: “... se a psicanálise não triunfar sobre a religião, é porque a religião é inquebrantável. A psicanálise não triunfará: sobreviverá ou não.” E ainda: “Não triunfará apenas sobre a psicanálise, triunfará sobre muitas outras coisas. É inclusive impossível imaginar quão poderosa é a religião.”

Pois bem, a escuta psicanalítica insere-se nessa dinâmica que conserva laços ancestrais com o judaísmo. Dentro de cada ser humano existe uma situação psíquica que solicita certa via de expressão, e a psicanálise oferece exatamente essa oportunidade, colocando o analista na posição de quem se atenta a tudo o que é falado, com o objetivo de conduzir o analisando à descoberta de si mesmo e, também, ao alívio de seus sofrimentos. Eis que a tradição vetusta do shemá se manifesta, não em uma circunstância essencialmente espiritual, contudo, mantendo ainda elementos relevantes de consistência. É o verdadeiro que se revela, é algo que se transmite de um indivíduo ao outro, sigilosamente, de fato, como se ali existisse um segredo precioso, algo que necessita ser tratado com o devido respeito. Sem dúvida, cabe ao psicanalista tratar esse processo com imenso desvelo, entendendo sempre que tudo aquilo que é dito representa a intimidade de alguém, não raramente uma intimidade dolorosa que só se manifesta no desenrolar da terapia, de forma muito paciente.

O falar é o modus operandi dentro da psicanálise, o caminho rumo ao inconsciente, e a escuta é parte importante da elaboração intelectual do psicanalista.

Gabriel Santamaria é autor de O Evangelho dos Loucos (romance), No Tempo dos Segredos (romance), Assim Morre a Inocência (contos), Destino Navegante (Poemas), Para Ler no Caminho (Mensagens e Crônicas).

sexta-feira, 4 de maio de 2018

O QUE CONDUZ O INDIVÍDUO AO PROCESSO PSICANALÍTICO?



O que conduz o indivíduo ao processo psicanalítico?

Certamente uma demanda. E a demanda corresponde aos fatos problemáticos que ocasionam transtornos psicológicos, assim sugerindo a necessidade do tratamento. Ou seja, o cliente busca aliviar o sofrimento, e o processo analítico oferece a ocasião conveniente. Mas a boa intenção daquele que procura um psicanalista é somente o passo inicial de um caminho que geralmente solicita tempo, e também um comprometimento que quase corresponde a um acordo formalizado com o profissional escolhido. Isso porque o tratamento sucede em etapas que se desenvolvem na medida em que o analisado expressa-se através da livre associação, ofertando ao analista o conhecimento dos problemas essenciais trazidos ao consultório. Trata-se, outrossim, de uma expedição à infância do indivíduo com o intuito de ali desvendar as origens da demanda, além de uma interpretação dos elementos oníricos que podem fornecer vestígios para o entendimento da personalidade daquele que se submete ao processo.

Nesse processo, é comum surgirem resistências. Quando o analista aproxima-se do conteúdo inconsciente, tentando assim desvendar o que se encontra escondido, o cliente ergue suas barreiras no intuito de proteger-se da realidade. Trata-se de uma atitude espontânea que sucede, frequentemente, sem que o indivíduo se dê conta, um mecanismo de defesa acionado no automático. O motivo dessa resistência se encontra no fato de que todos nós criamos estruturas psicológicas que sustentam nossa personalidade – por exemplo, a autoimagem –, estruturas estas que não raro são constituídas na base de elementos insatisfatórios como traumas, desejos reprimidos, falsificações da realidade, etc., ou seja, tudo aquilo que tende a ser desmascarado durante o processo psicanalítico. A resistência nasce do medo devido à mudança. Mudar significa desconstruir as estruturas equivocadas, reconstruindo-se a partir de novas bases fornecidas pelas sessões de análise, sempre com a participação ativa do psicanalista. Ser um guia confiável nessa passagem muitas vezes dolorosa é a missão daquele que está analisando o cliente.

Para que as etapas da análise desenvolvam-se satisfatoriamente, o psicanalista deve quebrar essas resistências de forma paciente. Sem dúvida, carece estabelecer com o cliente uma relação de confiança e cumplicidade, mostrando-lhe que o processo será mais bem-sucedido na medida em que as verdades enterradas no inconsciente vierem à tona. Isso exige tempo, e é importante que analista e analisado sejam fieis ao compromisso. Se as coisas sucederem conforme o programado, aquilo que se encontra reprimido – a causa da demanda –, será revelado, e o desenrolar do tratamento se dará sem dificuldades. Mas é imprescindível sempre um ato de coragem da parte do analisado, afinal de contas, o que se esconde é, na maior parte das vezes, aquilo que produz incômodo; em contrapartida, é preciso que o psicanalista se comporte como uma espécie de arqueólogo da psique, desenterrando as lembranças soterradas, os traumas do passado, os temores, as inseguranças, etc. Com essa dinâmica sucedendo, um e outro justificarão seu papel no processo psicanalítico.

Os bons resultados oriundos disso favorecerão ao indivíduo desempenhar melhor seu papel na sociedade. Aliás, devemos sempre levar isso em consideração: embora a psicanálise cuide da psique, seus reais objetivos não são tão íntimos assim. Quero dizer que não se trata somente de vasculhar o inconsciente com o intuito de solucionar as questões psicológicas, trata-se, sobretudo, de conduzir o sujeito a uma situação de felicidade, de auxiliá-lo no exercício de suas atividades, fazendo com que o mal-estar muitas vezes vivenciado na existência humana diminua ou até mesmo desapareça. Se a psicanálise é um método de autoconhecimento – e disso não duvido –, deve-se admitir que de nada serviria um conhecimento de si que não trouxesse mudanças. Quanto a isso, é importante que o analista se mantenha atento para que o cliente não se limite única e exclusivamente ao processo analítico no interior do consultório, que não se mantenha estagnado, ou até mesmo que não se acomode, supondo que o processo por si só conseguirá efetuar as transformações necessárias. Caso não aconteçam modificações palpáveis nas atitudes, a terapia tenderá a ser longa e dispendiosa, sem resultados práticos convincentes.

Sigmund Freud criou a psicanálise na intenção de aliviar o sofrimento de seus pacientes neuróticos, e conquanto essa ciência tenha desenvolvido inúmeras teorias interessantes, urge constantemente recordar seu caráter objetivo. Sem isso, ela correria o risco de virar somente um território de elucubrações, uma espécie de filosofia sem consistência real em que conceitos como id, ego e superego flutuariam nas discussões sem qualquer validade provável. Se assim fosse, de fato, a psicanálise em nada contribuiria para o tratamento das neuroses, e não estaria apta a abolir o sofrimento humano. Portanto, cabe ao analista conservar isso bem firme em seu pensamento: os pacientes não se prestam meramente à aplicação de teorias. Nossa missão corresponde, na verdade, em curar doenças na medida das possibilidade, oferecendo a quem nos procura ajuda necessária a fim de que possa ser mais feliz em uma existência saudável. 


Gabriel Santamaria é autor de O Evangelho dos Loucos (romance), No Tempo dos Segredos (romance), Assim Morre a Inocência (contos), Destino Navegante (Poemas), Para Ler no Caminho (Mensagens e Crônicas).


quarta-feira, 18 de abril de 2018

OS SONHOS E SUAS CARACTERÍSTICAS




Hoje a interpretação dos sonhos encontra-se tão arraigada na cultura contemporânea como um elemento pertencente ao desenvolvimento da psicanálise que seria mesmo interessante evocar o fato de que, além das características científicas do método, existem também elementos religiosos. Como médico psiquiatra, Sigmund Freud agia dentro de perspectivas epistemológicas, e ainda que críticos tenham questionado o valor científico da psicanálise, sem dúvida Freud seguiu parâmetros bastante rigorosos. Conquanto atualmente o fato de psicanalistas escrutinarem os sonhos dos analisados no intuito de tentar compreender o inconsciente em busca da causa relativa aos problemas mentais e consequentemente da cura necessária pareça uma circunstância corriqueira, ao analisar essas manifestações oníricas, Freud enveredava por caminhos obscuros. Há tempos os seres humanos lidam com tentativas de entender os mecanismos e os significados dos sonhos, e não raramente essas tentativas expressam-se através de oráculos e outras artes divinatórias. Mesmo as mais relevantes tradições religiosas não escaparam do fascínio exercido pelos sonhos. Por exemplo, é possível encontrar na Bíblia menções a sonhos simbólicos que preconizavam acontecimentos e aconselhamentos que favoreciam a solução diante de situações consideradas muito complexas.

Para além das referências religiosas e da teoria psicanalítica acerca do tema, existe o fato da experiência em si mesma. O sonho ocorre na existência dos indivíduos como uma elaboração inconsciente em que se mesclam certa narrativa parcialmente razoável e inúmeros elementos desconexos que muito frequentemente desafiam a compreensão daquele que se dedica a interpretá-lo. Por vezes, relatamos ou testemunhamos relatos de sonhos considerados absurdos. Situações confusas como se encontrar em um determinado ambiente, e no instante seguinte perceber-se subitamente em outro ambiente diverso sem que tenha havido deslocamento, ou então circunstâncias em que certas pessoas se transformam em outra de aparência diferente, ou ainda mesmo se metamorfoseiam em criaturas animalescas, tudo isso acontece no decorrer do fenômeno onírico sem que subsista nele próprio qualquer justificativa. De fato, a participação do absurdo na estrutura dos sonhos dificulta bastante sua decodificação, no entanto, devemos também admitir que essa característica talvez tenha um significado capaz de nos auxiliar no entendimento do mecanismo interno dos sonhos.

De onde provém essa característica do absurdo presente no sonho? Por que o fenômeno onírico não segue o padrão lógico e razoável do discurso consciente? Para a psicanálise, trata-se de uma questão fundamental. Para abordá-la, é necessário compreender que a mente humana costuma manter um estado satisfatório de consciência quando em estado de vigília, mas assim que adormece, essa consciência decai substancialmente, fazendo com que percamos o contato com a realidade desperta. Passamos a viver então experiências não verdadeiras em que recordamos coisas relacionadas à nossa existência ou criamos fantasiosamente situações que se sucedem geralmente sem padrões fixos, e que podem interromper-se de súbito sem que isso represente qualquer perda significativa para o indivíduo. Pode-se sonhar com um acidente – aéreo, automobilístico ou de qualquer outra espécie – sem que existam consequências físicas ao despertar. No sonho, a diminuição do potencial consciente desfavorece a atuação da lógica, das situações racionalmente concatenadas, suscitando o fator do absurdo como elemento constitutivo do fenômeno onírico. De certo modo, podemos afirmar que a razão ou a lógica decorrente desta desenvolve-se mais frequentemente em um movimento linear, baseadas no estado de consciência, no entanto, quando entorpecidas pelo sono, surgem lacunas nesse movimento linear, situação essa que favorece o acontecimento de saltos na narrativa dos sonhos, causando consequentemente a impressão do absurdo.

A tese freudiana de que no sonho manifestam-se desejos reprimidos no inconsciente auxilia na compreensão desse elemento absurdo contido na estrutura onírica. De fato, a repressão dos desejos consiste justamente em retirar do eu consciente aquilo que dá a impressão de ter pouca conveniência – quase sempre sob a influência repressora do superego – e enterrar tudo no inconsciente. Quando o que foi reprimido ressurge no sonho, na maioria das vezes mescla-se a outros elementos – fatos relativos ao cotidiano, recordações do passado, cenas marcantes de filmes ou da literatura, etc. –, tornando mais complexa a interpretação. Se o analista tentasse decifrar o sonho como um todo, ou seja, como uma narrativa linear, decerto teria imensas dificuldades. Por isso, é necessário separar as diversas partes do sonho, analisando cada qual particularmente, assim aplicando aos símbolos ali existentes alguma forma de explicação cabível.

Também é interessante observar que a simbologia e seus significados têm duas vias comuns de interpretação: a primeira consiste em atribuir aos sonhos de todos os indivíduos sentidos de teor universal. Por exemplo, a visão de uma serpente deve ser entendida como representação do falo, a visão de animais selvagens como a força dos instintos, etc. Se a mesma justificativa pode ser utilizada com todos os indivíduos, isso demonstra que existem símbolos culturalmente válidos para todas as pessoas – naturalmente, seria interessante estudar essa questão em particular sob a perspectiva dos arquétipos propostos por Carl G. Jung, contudo, isso exigiria um ensaio específico. A segunda via de interpretação leva em consideração a vida peculiar do indivíduo analisado, interpretando aspectos dos sonhos não como manifestação de símbolos universais, e sim como elaborações vinculadas às experiências pessoais do sujeito. Caso o indivíduo tenha sido atacado por um cão feroz durante a infância, talvez essa situação tenha ocasionado receios que se expressam constantemente em sonhos nos quais se revive a circunstância desagradável. Neste caso, cabe ao psicanalista descobrir a melhor via de interpretação no intuito de oferecer ajuda ao analisado.


Gabriel Santamaria é autor de O Evangelho dos Loucos (romance), No Tempo dos Segredos (romance), Assim Morre a Inocência (contos), Destino Navegante (Poemas), Para Ler no Caminho (Mensagens e Crônicas).