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terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

CLAUDIO MARIOTTO FALA SOBRE O EVANGELHO DOS LOUCOS



Se você pretende ler este livro, prepare-se...

Ele não é um livro comercial, com aquelas fórmulas costumeiras afim de prender sua atenção no início e depois te entregar o óbvio.

Também não o leia de qualquer maneira. De qualquer jeito. Acredite, ele irá necessitar de sua atenção. Sempre que pego um livro para ler em uma semana, geralmente calculo o número de páginas que deverei ler por dia e desta forma consulto o número de páginas totais e divido por 7.

Com este não foi assim. Fininho com 160 páginas, calculei em média 25 páginas por dia e ainda o terminaria com folga. Ledo engano.

Em primeiro lugar, Gabriel entrega parágrafos bordados com palavras de alta qualidade, uma degustação literária caprichada e que amplia a qualidade da narrativa dos cenários, personagens e cenas. Não seja preguiçoso, consulte um dicionário. Você irá perceber que as palavras escolhidas com esmero são exatamente as necessárias para conduzir o leitor pelo universo de sua obra. Uma palavra retirada e a magia se quebra.

O perfil psicológico do personagem principal e a evolução de sua jornada pessoal é assustador e impressionante ao mesmo tempo. Sabe aquelas situações que observamos na sociedade, no mundo que nos sufoca e tentamos deixar de lado justificando a existência deste " Mal estar da civilização" ? Em o Evangelho dos Loucos ou você encara e sente esta angústia, ou irá apenas passar pelo livro e pode ser que não o aprecie.

Foi difícil para mim, com meus 52 anos, não me identificar com várias situações. Em algumas situações fiquei pensando: Como ele consegue retratar exatamente o que já senti em alguns trechos da minha vida? Situações tão parecidas, reações tão próximas, momentos de asfixia tão verdadeiros.... 

Não irei entregar conteúdos, assim se você desejar ler e sentir uma excelente obra, aí está.

Ao terminar o livro nesta tarde de domingo eu necessitei caminhar um pouco. Sentir o vento, aproveitar sabores, sorrir para o entardecer e meditar mais sobre o livro.

Um pouco dele ficou em mim. 

A você Gabriel Viviani de Sousa, ser grato é pouco pela forma como entregou essa obra a nós leitores.

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domingo, 11 de fevereiro de 2018

MINUTOS DE FILOSOFIA: COMO TER UMA VIDA SAUDÁVEL


O AMOR E A FORMAÇÃO DA PERSONALIDADE


Mudam-se as culturas, alteram-se as concepções dos homens a respeito dos mais variados assuntos, no entanto, a questão do amor continua sendo fundamental. De fato, não há como escapar da relevância do amor, afinal de contas, disso depende não somente a perpetuação da espécie humana: depende também a formação da personalidade. Para Sigmund Freud, o indivíduo cujo desenvolvimento psicológico atingiu a plenitude é aquele que se mostra capaz de amar e trabalhar. Muitos filósofos e teólogos entendem realmente que o ápice da existência dos homens reside na capacidade de amar, e o maior dos mandamentos de Deus na tradição judaico-cristã define-se assim: Amar a Deus sobre todas as coisas e aos outros como a si mesmo. Embora o amor seja uma experiência essencial, sua vivência pode ser alterada levando-se em consideração a maturidade do sujeito. Uma personalidade que tenha ultrapassado satisfatoriamente as fases normais do desenvolvimento psicológico, e que tenha adquirido, consequentemente, noções éticas e morais convincentes, além de ter transcendido os limites de sua rotina corriqueira e alcançado a esperança da vida eterna em uma realidade espiritual, certamente se encontrará preparado para gozar o amor de um modo muito mais profundo e abrangente. Porém, se o indivíduo sofreu alguma interrupção nesse processo, ocasionando problemas na constituição de sua personalidade, é bem possível que não experiencie o amor senão parcialmente ou de forma algo deturpada.

Para estabelecer uma relação amorosa bem-sucedida, imprescindível que se construa, por exemplo, uma autoimagem satisfatória. Quanto mais essa autoimagem estiver edificada sobre o princípio da realidade, melhor será a vivência do amor. Sempre que o indivíduo afirma-se a si mesmo em uma posição de inferioridade, a experiência do relacionamento afetivo fica comprometida por uma constante sensação de incapacidade. Há o temor de não estar à altura das expectativas, e uma exacerbação das qualidades do ente amado. Nessa circunstância, a relação se demonstra uma troca desigual, em que o indivíduo acredita achar-se aquém das qualidades necessárias ao envolvimento amoroso. Por outro lado, uma personalidade cuja autoimagem esteja deturpada pela valorização excessiva das próprias virtudes fatalmente terá dificuldades de oferecer no contato amoroso a contraparte adequada, pois ao se supor em uma posição de superioridade, utiliza o amor de forma egoísta. Pessoas dessa natureza buscam no outro não aquilo que este possui de amável e peculiar, mas sim a própria imagem narcisista nele refletida.

Realmente a plenitude do amor sucede através de uma dinâmica semelhante à via de mão dupla na qual aquele que ama procura no ser amado certa realidade distinta, sendo que a conexão com essa realidade se transforma em uma experiência de descoberta: é a descoberta do outro naquilo que este possui de particular. Trata-se de um processo complementar em que o amante se esforça no sentido de descortinar o segredo da outra pessoa no intuito de ali encontrar algo que lhe é faltante. Do mesmo modo, aquele que ama deve necessariamente desvelar seus mistérios interiores com o objetivo de se fazer compreendido, revelando-se nesse encontro amoroso. Portanto, existe uma contemplação mútua na qual a objetividade do ser carnal comunga-se com a subjetividade do sentimento em uma relação onde a linguagem é, às vezes, evidente e, outras vezes, cifrada. Há que se conviver com certos aspectos desconhecidos na personalidade do ente amado, na esperança de que o tempo e a proximidade ocupem-se da tarefa de tornar conhecido o que é obscuro. Quando o relacionamento estabelece laços firmes, o diálogo antes repletos de confusões e inconsistências, de palavras excessivas e discursos vazios eleva-se ao nível superior no qual o entendimento ocorre de maneira mais natural, às vezes até silenciosamente, porque as almas, então, compreendem-se quase imediatamente devido ao fato de que a convivência as colocou no mesmo patamar. Sem o risco do sentimento de inferioridade ou de superioridade, o ato de amar acerca-se da plenitude tão almejada.

Porém, o ideal do relacionamento amoroso, exatamente por ser de alta exigência, nem sempre é alcançado. Com frequência, as relações sucedem em um estágio muito aquém daquele aqui proposto, e ao acontecer assim se torna terreno propício de frustrações. Nessa circunstância, lamentar os relacionamentos malsucedidos não é o bastante, afinal, a questão não se resume simplesmente em fazer a escolha correta no momento de admitir a pessoa com quem se estabelece o intercurso amoroso: sobretudo, trata-se de alimentar em si mesmo a atitude adequada, sendo que tal se resume em estar disposto a estimular esse movimento de descoberta do outro, além do desvelamento de suas próprias verdades interiores. Para isso, o exercício de um processo analítico pode ser aconselhável, porque havendo sucesso na relação transferencial entre o paciente e o psicanalista, aquele deverá ser conduzido ao centro de si mesmo, e assim desconstruir as barreiras da personalidade que impossibilitam a fruição do amor. Talvez seja realmente ilusório acreditar que, em meio às vicissitudes da existência, convivendo com as incongruências da alma humana, alguém consiga entender a postura correta na relação sentimental. Por isso será salutar submeter-se aos cuidados de um psicanalista competente que, conduzindo o indivíduo pelo caminho do conhecimento de si mesmo, revele as deficiências de sua personalidade, e auxilie a corrigi-las.


Gabriel Santamaria é autor de O Evangelho dos Loucos (romance), No Tempo dos Segredos (romance), Assim Morre a Inocência (contos), Destino Navegante (Poemas), Para Ler no Caminho (Mensagens e Crônicas).


quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

HERMANN HESSE E A PSICANÁLISE




Quando um ramo do conhecimento começa a exercer influência dominante tanto na sociedade quanto na cultura, surgem manifestações artísticas variadas expressando o espírito dessa contribuição intelectual. Geralmente, a literatura exerce uma posição de destaque, legando obras relevantes que auxiliam na compreensão daquilo que é proposto como conhecimento. No caso da psicanálise, é um fato que deitou influência no pensamento de inúmeros escritores, no que tange à elaboração de enredos com características analíticas ou na criação de personagens psicologicamente complexos, ou ainda na crítica do trabalho literário como expressão da personalidade do autor. Sigmund Freud realiza esse tipo de estudo peculiar em seus escritos, atendo-se especificamente a Fiódor Dostoievski e William Shakespeare, assim abrindo uma interessante vereda de investigação para psicanalistas e críticos literários. Seguindo essa perspectiva, ainda atualmente existe a possibilidade de estender atenção às obras e à biografia de outros literatos, a fim de compreender como a psicanálise ali se faz presente, interpretando aquele terreno humano particular. 

Na metade do século vinte, sobretudo na Europa, a literatura estabeleceu laços firmes com a psicanálise na tentativa de explicar melhor a sociedade e a natureza humana. Uma obra de características poéticas e filosóficas como a do escritor germano Hermann Hesse não se furtou ao diálogo com o trabalho de Sigmund Freud em publicações ficcionais que lhe valeram o prêmio Nobel de literatura. Como um exímio perscrutador da alma, um cultor do autoconhecimento, e também um buscador da verdade, Hesse assimilou alguns elementos da psicanálise em seus enredos, como os impulsos instintivos do Id tentando exercer controle sobre a personalidade dos indivíduos, o escrutínio do inconsciente e a evocação das memórias infantis. A força das pulsões ou o poder do âmbito instintivo expressam-se em romances como O Lobo das Estepes e Demian. Com agudeza de análise, Hesse cria protagonistas que se encontram em uma região existencial de contraste entre os desejos obscuros e a luz da sabedoria, e trilham caminhos de autodescoberta através da vitória do elemento intelectual sobre os declives da personalidade humana. 


Para compreender melhor as dimensões existentes na obra de Hermann Hesse, é necessário discernir em suas páginas algumas referências marcantes que se manifestam em várias narrativas. Dessas referências, uma das mais corriqueiras é o dualismo estabelecido entre a vida superior – existência espiritual ou hemisfério intelectual – e o ambiente inferior da vida mundana, frequentemente uma existência relacionada a crimes e a obtenção frugal de prazeres. No prólogo do romance Demian, o autor descreve o ser humano da seguinte forma: Homem algum chegou a ser completamente ele mesmo; mas todos aspiram a sê-lo, obscuramente alguns, outros mais claramente, cada qual como pode. Todos levam consigo, até o fim, viscosidades e cascas de ovo de um mundo primitivo. Há os que não chegam jamais a ser homens, e continuam sendo rãs, esquilos ou formigas. Outros que são homens da cintura para cima e peixes da cintura para baixo. Mas, cada um deles é um impulso em direção ao ser. Como uma criatura cindida, o homem se vê colocado em uma circunstância de divisão, e tal divisão é proposta quando Emil Sinclair – o protagonista da trama – descobre-se no limiar de uma rotina delinquente, sendo salvo pela atuação influente de Demian. O encontro com o jovem notável representa a passagem da escuridão à luz, do terror paralisante para a bravura honrosa, da ignorância mais baixa ao cultivo da sabedoria. Também no conhecido romance O Jogo das Contas de Vidro, o dualismo se apresenta na distinção demonstrada entre uma vocação intelectual superior daqueles eruditos que se dedicavam à Castália e o resto da sociedade que vive imiscuída em questões de ordem prática e material. 


Como surge, afinal, essa temática dualista no trabalho literário do escritor germânico?


As experiências iniciais do autor, aquelas relacionadas à infância e à juventude, certamente marcaram com profundidade seu imaginário. Hesse era filho de teólogos protestantes, e seu destino estava aparentemente vinculado às expectativas dos progenitores: como eles, deveria dedicar-se aos estudos teológicos, e encerrando-se formalmente em um seminário, de lá sairia como pastor de um rebanho cristão. Sua residência, o lar constituído pela família Hesse, era um ambiente no qual reinava a ordem e a piedade, e embora o jovem Hermann admirasse essa harmonia, seu desejo verdadeiro consistia em mergulhar no mundo, expandir horizontes, bebendo no cálice das satisfações mais seculares. Por isso, fugiu do seminário, imergindo em uma existência dedicada ao conhecimento, à literatura e às inúmeras expedições de caráter místico e espiritual. A dicotomia entre os ambientes do lar paterno – e do seminário também naturalmente – e a realidade do mundo determinou a percepção do escritor Hermann Hesse. Seus personagens encontram-se com muita frequência divididos entre dois hemisférios, e quando não exatamente assim, o autor costuma caracterizar tal dualismo em indivíduos de características bastante antagônicas, como é o caso de Narciso e Goldmund. 


Que Hermann Hesse tenha interessado-se pela psicanálise é sugestivo porque demonstra não somente que seus interesses acercavam-se das questões freudianas, mas também que sua personalidade exigia uma análise de ordem psíquica. De fato, seu desenvolvimento sexual e intelectual como processo formativo e, concomitantemente, traumático delata-se em personagens como Demian e Harry Haller (O Lobo da Estepe), induzindo-nos a deduzir que para o autor alemão, a literatura não significava apenas uma forma artística de expressão; além disso, ela representava um dos elementos essenciais de sua autoanálise. 


Gabriel Santamaria é autor de O Evangelho dos Loucos (romance), No Tempo dos Segredos (romance), Assim Morre a Inocência (contos), Destino Navegante (Poemas), Para Ler no Caminho (Mensagens e Crônicas).