" " NOVA CASTÁLIA: Abril 2017

Curta a Página do Autor

quarta-feira, 26 de abril de 2017

POR QUE NÃO ME TORNEI SOCIALISTA



Por que alguém se torna socialista? Há uma resposta supostamente óbvia: para acabar com as desigualdades sociais e saciar os famintos. Trocando em miúdos, por um impulso de generosidade. Mas se alguém se torna socialista realmente por esse motivo, por que não se tornaria também um benfeitor de características religiosas como, por exemplo, Madre Teresa de Calcutá? Se observarmos bem, o impulso caridoso como fenômeno humano antecede historicamente o surgimento do socialismo, e é um fator mais intenso e marcante nas religiões institucionalizadas. Sem dúvida, não há partido ou regime socialista no mundo inteiro que sustente mais pobres do que as igrejas. Logo, o impulso de generosidade não deve constituir-se em argumento suficiente para justificar o fato de alguém se transformar em socialista. Nesse caso, qual seria, então, o motivo? Talvez a influência exercida deliberadamente sobre os indivíduos. É notório que o socialismo tem um eficiente método de doutrinação, e através dele arregimenta seus prosélitos. Sendo assim, muitos provavelmente acabam sendo apanhados nas redes do socialismo. Se considerarmos que a esquerda conquistou uma espécie de hegemonia cultural na sociedade brasileira após décadas de doutrinação eficiente, surpreende que algumas pessoas não se tenham tornado socialistas desde o berço ou, ao menos, durante a juventude quando estão mais expostos à influência.

Sou uma dessas exceções, admito. Nunca me deixei seduzir pela retórica do socialismo. Durante a adolescência, sendo então um frequentador assíduo de bibliotecas, e tendo-me interessado pelo estudo da filosofia, comecei a buscar os temas que versassem sobre essa temática. Na ocasião, o nome que me surgiu primeiramente foi o de Karl Marx. Costumava ver cartazes de manifestações e simpósios comunistas espalhados pela cidade de São Paulo naquele tempo, e o rosto do ideólogo alemão, em gravuras conhecidas, neles figurava. Sempre houve ao redor do socialismo certa aura de intelectualidade, e um leitor ávido como eu não ignorava esse fato. Por isso busquei ingressar no terreno filosófico abordando, de início, textos marxistas, na esperança de que pudessem construir-me intelectualmente. Tudo o que eu desejava era que a filosofia expandisse meus horizontes, me oferecesse profundidade e, sobretudo, que respondesse as questões essenciais da alma humana. Nisso consistia minha sede de conhecimento, e era o que eu ansiava fruir nas obras de filosofia.

Foi uma abordagem sincera, afinal, eu estava realmente interessado em destrinchar o pensamento marxista. Mas à medida em que avançava na leitura do Manifesto do Partido Comunista, do 18 de Brumário de Luís Bonaparte e das Teses Sobre Feuerbach, por exemplo, notei que nesses escritos decerto não encontrava aquilo que estava buscando. Tive a nítida impressão de que estava habitando um terreno raso e árido. As análises sociais de Karl Marx, cujo intuito consistia em revolucionar o sistema, levando o modelo capitalista a um estado socialista através de um processo dialético não entusiasmava o meu espírito. Além disso, o materialismo histórico do autor, redundando em um ateísmo militante, não chegava a convencer-me. Honestamente, Marx não oferecia qualquer resposta às questões fundamentais da alma humana. Talvez alguém possa objetar que os problemas sociais e econômicos tratados por Karl Marx não me tocavam particularmente, sendo assim, isso explicaria a pouca atração que sua obra exercia sobre minha pessoa. Contudo, a realidade é que sempre estive mais próximo da classe dos proletariados – a qual o autor dirigia seu pensamento. Logo, supostamente deveria encontrar-me suscetível à retórica marxista. Mas o fato é que, em momento algum, isso aconteceu.

Desiludido, abandonei o marxismo e me aventurei por outras estantes da biblioteca. Na ocasião, despertou-me o interesse as obras de um autor especialista em religiões comparadas: Mircea Eliade. Sua análise das crenças religiosas revelou-se de grande fôlego. O autor abordava as mais variadas tradições espirituais, do cristianismo ao islamismo, dos cultos de mistérios da Grécia antiga às várias seitas gnósticas, do hinduísmo às tribos norte-americanas, etc. Com argúcia e uma cultura enciclopédica, Eliade comparava as inúmeras manifestações religiosas do oriente e do ocidente, lançando luzes sobre as origens da experiência sobrenatural no ser humano. Havia alguma coisa de místico naqueles livros, como se ao desvendar as culturas tradicionais, o autor conseguisse traduzir elementos da alma humana, desde os primórdios à modernidade. Porque o homem religioso, no fundo, é intimamente o mesmo, não importa o período histórico. Mesmo que seu estudo não se centralizasse no homem contemporâneo, oferecia instrumentos suficientes para interpretá-lo também.

Havia diferenças substanciais entre os trabalhos de Karl Marx e os de Mircea Eliade. Enquanto os limites do primeiro eram estreitos, os limites do outro mostravam-se abrangentes. Enquanto Marx negava a transcendência, Eliade fazia disso o mote de sua investigação intelectual. Um tencionava romper com as tradições, e o outro supunha preservá-las. Um era horizontal, o outro vertical. Metido entre os dois, inclinei-me seguramente no sentido do estudioso de religiões comparadas. De fato, com muita satisfação, dediquei-me à leitura da maioria dos livros deste autor, e além de compreender melhor o fenômeno religioso, também compreendi melhor a mim mesmo. Estou absolutamente convencido de que, naquele momento, meu destino intelectual foi definido, e eu me desviei da visão superficial e materialista da realidade marxista para vislumbrar uma realidade de características profundas e sobrenaturais. 

ADQUIRA AS OBRAS DO AUTOR

LEIA TAMBÉM:

quarta-feira, 19 de abril de 2017

AS DIMENSÕES DA VIAGEM EM ADALBERTO DE QUEIROZ



Se o poeta tiver a possibilidade de expandir os horizontes, não lhe perdoaremos que se limite à estreiteza. Para que seu destino se cumpra, é necessário viajar. Pôr os pés na estrada com ousadia, desvendando os mistérios do caminho, descobrindo em cada porto o amor e a solidão, em cada estadia os sabores variados da realidade, e tudo fruindo, transformar posteriormente em discurso poético. Eis o espírito que atravessa a obra Destino Palavra, do poeta goiano Adalberto de Queiroz. Na peregrinação que permeia as páginas do livro, Queiroz revisita os tempos de infância, evocando o menino-poeta que, então, somente poderia ansiar as terras distantes a que se arrojaria no futuro.

Eu sou esse menino no corpo do velho d’agora.
Sou o que vi; novas terras seriam anunciadas;
com o brilho do luar, terras a conquistar.

Suas asas ainda não se haviam aberto totalmente, as viagens se encontravam insipientes, mas o fato é que o poeta estava realmente destinado à liberdade de se aventurar, e suas aventuras não eram apenas geográficas – embora estas fossem imprescindíveis –, mas também literárias e espirituais.

Quando a alma conhece a emoção de sair em descobrimento, e faz desse exercício um método de se desvendar no caminho, mais profundamente estabelece um diálogo com a obra poética de Adalberto de Queiroz. Neste sentido, entre mim e ele se fortalece uma verdadeira afinidade. Desde a juventude, também eu compreendi a relevância de expandir o espírito colocando os pés na estrada. As paisagens que vislumbramos, as comidas que provamos, as bebidas que consumimos, as pessoas que conhecemos, as línguas que aprendemos e as literaturas com as quais dialogamos, tudo, absolutamente tudo significa uma rota de descoberta, e a descoberta evolui em variadas dimensões. Ser nesse caminho exige ser inteiro. Exige carregar consigo toda a sua história, todos os anseios, e desdobrar-se a si mesmo não somente de maneira natural, mas também sobrenatural. Mesmo na poeira da estrada, essa intenção é que transforma a atitude em coisa elevada.

Ei-nos, naves: o espaço e o corrosivo
da memória, na clave fundante.
Passageiros que somos, ó naves
imbicadas no jade; nosso destino:
igualzinho ao de folhas no cedro
ou do baobá – infinitas e desejosas
se atracadas, de o espaço singrar.

E ainda:

Eis-me em busca da alma:
à caça de tesouros indecifráveis
de riquezas incontáveis.
Eis-me, aqui, como Cabral catando versos
porém sem tanta decifração e tato.

Queiroz compreende que as navegações geográficas, as excursões físicas através do mundo, representam um argumento importante para justificar a navegação essencial e verdadeira: aquela que o espírito realiza. Por isso o poeta avança a sua embarcação poética rumo a continentes teológicos tradicionais. Sua expedição aborda portos seguros nas obras espirituais de Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz. Ali Adalberto de Queiroz empreende a sua exploração em busca do conhecimento de Deus presente em si mesmo e na escuridão sensorial que a alma necessita ultrapassar a fim de atingir a comunhão divina. E essa comunhão é o objetivo real, o motivo dessa busca constante, de tudo aquilo que seus olhos testemunharam, daquilo que seu intelecto fruiu artisticamente. O menino da Vila Jaiara ainda mal pressentia a gravidade das navegações futuras, mas o poeta amadurecido pelas experiências isto não desconhece, e expõe o destino em seus versos.

Valei-me, João da Cruz, que a noite em dia
se transforme por milagre: e o sonho venha
por melhores águas nos levar a um prado.

E ainda:

Teresa, a castelhana d’Ávila
santificou sua vida; venceu o mundo
contra o mundo, contra todos.

O termo do itinerário percorrido por Adalberto de Queiroz consiste realmente nesse encontro sobrenatural com o Criador. Como já evidenciado nesta análise, as viagens do poeta – tanto geográficas quanto literárias – simbolizam o percurso existencial, do nascimento à velhice, da ignorância infantil à sabedoria madura, do pecado à redenção. Assim como estreamos neste mundo desnudos, também desnudos nos apresentaremos diante de Deus. Trata-se de uma nudez que extrapola o plano meramente corporal, atingindo uma dimensão metafísica, e o poeta antecipa em seus discursos o encontro com Deus no qual a criatura se desvestirá de todos os conceitos limitados, de todas as suas fraquezas, defrontando-se com a verdade em dimensão absoluta.

De toda veste despido
com a roupa da alma se vê –
de toda máscara,
de toda persona
de toda leitura

de todo orgulho
rompido; destituído –
Despiram-no
banharam-no
para a passagem.


Diante do cenário cultural brasileiro, onde campeia o discurso ideológico e no qual a literatura limitou-se a abordagens mesquinhas, abolindo qualquer referência às questões metafísicas mais relevantes, a obra poética de Adalberto de Queiroz auxilia no esforço tão necessário de reabrir o ofício da escrita às temáticas universais. Há muitos motivos suficientemente convincentes para degustar seus poemas, mas ainda que não fossem tantos motivos assim – e são! – somente o aludido acima seria o bastante para o leitor se lançar à descoberta da obra Destino Palavra.
 

LEIA TAMBÉM:

quarta-feira, 5 de abril de 2017

O ELOGIO DA BONDADE



Há em mim um hábito puramente literário que consiste no seguinte: buscar nas páginas das grandes obras escritas as referências que sirvam de analogia com situações reais ou elucubrações filosóficas. Por exemplo, se acaso me confrontasse com uma circunstância na qual determinado indivíduo, tendo-se aventurado a conhecer um país longínquo, encontrasse uma cultura atrasada e afeita a violências, isto evocaria automaticamente o enredo do livro Coração das Trevas, de Joseph Conrad. Na mesma linha bibliográfica, veio-me rápido à memória Lord Jim, o personagem marcante do mesmo autor, quando em anos recentes, na Itália, o capitão do navio Costa Concórdia abandonou seu posto de comando durante um acidente, enquanto a nau afundava. O episódio envergonhou a marinha italiana, e o capitão foi severamente punido pela atitude. Para os que leram Lord Jim, o enredo versa exatamente sobre um tripulante que, tendo-se defrontado com a possibilidade de um naufrágio, evade-se do navio como um verdadeiro covarde. Ocorre que o barco não afunda, de fato, e o protagonista – protótipo do anti-herói – passa a carregar, desde o momento, essa mancha vexatória em sua existência posterior.

Buscar referências na literatura é uma forma de tentar compreender melhor a realidade. Antes de nós, grandes escritores procuraram refletir a respeito de temas universais, e com exímio talento transformaram esses temas em leituras peculiares. O amor, a coragem, a morte, o temor, a persistência, a fé, a liberdade, etc., todas as questões fundamentais da humanidade foram transformadas em obras memoráveis. Quando se estabelece correlação entre uma circunstância verídica e seu símile literário, essa experiência encontra o estado de perfeição. Porém, quando a referência literária se torna mais intensa, sobrepujando o real, corre-se o risco de perder o contato com os fatos do cotidiano. Nesse caso, os conceitos adquirem status de importância excessiva, e o indivíduo distancia-se da consistência do real. O amor na literatura é realmente inspirador, no entanto, não se compara com a vivência amorosa na prática. Em situações como as mencionadas acima, ocorre um processo de evasão do mundo palpável rumo ao mundo da fantasia.

Faço essas meditações porque também eu, vivendo imerso na literatura, padeço dessa tendência de idealizar demasiadamente as situações, vivendo assim mais no íntimo das páginas escritas do que no contexto físico da realidade. Ultimamente, refletindo acerca de uma virtude tão necessária quanto a bondade, procurei ao redor as referências palpáveis que a representassem, e lamentei não poder encontrar nenhuma que fosse eloquente como os exemplos característicos contidos na tradição literária. E nisso incluo tanto a tradição religiosa quanto a secular. Penso na figura do patriarca José, administrador do Egito, submetido apenas ao Faraó, que tendo sido rejeitado e agredido pelos próprios irmãos – além de ser vendido como escravo – oferece aos mesmos o perdão movido pelo sentimento de compaixão, e recebe-os generosamente em uma terra de fartura. Recordo-me também de Sônia, a prostituta misericordiosa de Crime e Castigo, obra de Fiódor Dostoievski, que a despeito de sua condição social inferior, serve como oportunidade de redenção para Raskólnikov, o protagonista do enredo. Ambas as referências são literárias, embora no primeiro caso trate-se de um personagem histórico.

Talvez seja demasiado exigente escrutinar o mundo em busca de exemplos semelhantes aos referidos. Mas em termos de virtude, se o que se deseja consiste em testemunhar a sua existência, urge procurá-la na sua maior expressão. O problema todo, no entanto, não reside no caráter sublime das referências, e sim na tábua de valores morais da sociedade contemporânea. Onde encontrar a bondade como virtude primordial no comportamento humano em um mundo no qual o dinheiro conquista mais corações do que qualquer beldade? Nesta sociedade em que o rancor revolucionário costuma ser ensinado a crianças e adolescentes, como descobrir o aroma agradável da generosidade? Estamos soterrados debaixo de materialismo, consumismo, ideologias esfarrapadas, sexualização exacerbada, e em um contexto dessa magnitude, a verdadeira bondade transformou-se em um elemento de segunda ou terceira categoria. Para testemunhar sua suavidade, às vezes revela-se imprescindível evadir-se um pouco da realidade a fim de saciar-se nas águas tradicionais da literatura. Porém, esse é um subterfúgio que tem certos limites, e a alma do ser humano exige a consistência daquilo que pode ser vivenciado.

Por um momento, no entanto, meditando acerca desse assunto, ocorreu-me que provavelmente seria demasiado confortável postar-me somente na posição de espectador. Para que a bondade seja um fato, basta que o indivíduo assuma para si mesmo o propósito de habituar-se à virtude. Mesmo não alcançando a sublimidade das referências mencionadas, o esforço sincero de agir com generosidade terá um valor louvável. Buscar os benesses da bondade nos outros e esquecer que seu princípio como manifestação humana encontra-se na livre decisão do indivíduo significa adequar-se à situação social em que os valores rejeitam esse tipo de virtude. Significa nivelar-se com aquilo que há de mais baixo. Não obstante, quando existe quem se encarregue de ser a referência faltante, o movimento torna-se inverso, e o indivíduo alça-se acima da categoria comum, oferecendo às demais pessoas a suavidade daquilo que anteriormente buscava.

Há nisso certo heroísmo. Tomar em seu encargo a responsabilidade de atuar na contramão da maioria, admitindo ofertar o que seja raro, embora não exista qualquer garantia de receber o mesmo em contrapartida. Porém, acredito também que me pareça a melhor escolha dentre as possíveis. Disso é preciso, sobretudo, fazer um propósito, decidir-se peremptoriamente e seguir adiante. Fazer de si mesmo um centro de bondade, ainda que timidamente no começo, e talvez alumiar o mundo com esse comportamento. 



LEIA TAMBÉM: