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quinta-feira, 25 de maio de 2017

A ESSÊNCIA DO ESOTERISMO




Poucos assuntos conseguiram sobreviver aos ataques mais variados e ainda suscitar tanto interesse quanto o esoterismo. No decorrer dos últimos séculos, o Iluminismo instaurou o culto da Razão, o Positivismo tentou excluir qualquer forma de conhecimento transcendente, a Revolução Científica pretendeu desmistificar a visão sagrada da realidade, mas, a despeito disso, o interesse pelo esoterismo em momento algum desapareceu, ainda que sua estrutura aparentemente estivesse na contramão dessas tendências. Não se pode afirmar que o esoterismo seja assunto que diga respeito a um número grande de pessoas. Na verdade, o círculo daqueles que se dedicam a estudar seriamente o assunto não é demasiado extenso, e devido ao caráter enigmático de sua natureza, os membros desse círculo não costumam apresentar-se socialmente com tanta facilidade. Muitos detratores rebelam-se contra o esoterismo asseverando tratar-se de crendice e superstição. Crer que o destino de um indivíduo encontre-se vinculado à conjunção astral de seu nascimento, que os arcanos do tarô compreendam um caminho iniciático, que determinadas práticas relativas à magia sagrada têm o potencial de auxiliar no processo de desenvolvimento da consciência e transformar pensamentos em realidades, tudo soará demasiado suspeito a esses indivíduos, conquanto para aqueles que depositam confiança no esoterismo, nisso tudo se reconheça uma estrutura lógica manifesta quando o assunto é perscrutado com acuidade.

Suscitar a lógica como alguma coisa que esteja relacionada com esse tema historicamente estigmatizado, exige não somente compreensão profunda a respeito do assunto, mas também conhecimento preciso das tradições filosófica e espiritual da humanidade. Porque em muitos sentidos, as ciências esotéricas estiveram intimamente unidas a essas tradições durante séculos, e se acaso se desvincularam, tomando caminhos independentes, isto se deve menos à iniciativa dos esoteristas, e mais à consequência de um racionalismo excessivo que começou a dominar o ambiente cultural. Houve um tempo em que filósofos, sacerdotes, abades, alquimistas, magos e astrólogos falavam a mesma linguagem, e entendiam-se entre si sem dificuldade. E assim se deu porque entre eles existia um fundo teórico comum que sustentava todos os argumentos. Trata-se daquilo que se encontra sintetizado no texto basilar da tábua esmeraldina, cuja autoria costuma ser atribuída a Hermes Trismegisto:

O que está embaixo é como o que está em cima e o que está em cima é como o que está embaixo, para realizar os milagres de uma única coisa.

Posso afiançar com inteira convicção que toda a corrente tradicional de esoteristas encontra nessa breve afirmativa um fundamento necessário. Dificilmente será possível determinar com toda precisão a data em que a conhecida tábua da esmeralda foi composta. Sabe-se, entretanto, que o texto é bastante vetusto, e seu conteúdo habitualmente vem sendo utilizado não apenas por alquimistas – afinal de contas, é parte integrante do cânone alquímico – mas também por todos aqueles que dedicam interesse aos enigmas esotéricos. Provavelmente o que ali se encontra escrito em linguagem hermética resume e transmite um ensinamento ancestral. Sobretudo o que se exige compreender aqui é a existência de duas dimensões da realidade: a superior e a inferior, a espiritual e a material, a transcendente e a imanente, estabelecendo-se entre ambas um vínculo essencial. O que está embaixo é como o que está em cima e o que está em cima é como o que está embaixo, isto quer dizer, identifica-se uma relação de semelhança entre as duas dimensões. O superior e o inferior compartilham a mesma natureza, a mesma origem, e essa é uma das verdades que o esoterismo conserva, revelando àqueles que anseiam conhecer o segredo.

Pode-se deduzir analisando-se o texto da tábua da esmeralda que essa identificação estabelecida entre o que está acima e o que está embaixo assegura uma correlação estrutural. Ou seja, se ambos se correspondem, aquilo que constitui a natureza também corresponde. Postas as coisas em um contexto filosófico, evocamos sistemas de pensamento que, partindo inicialmente da contemplação cósmica, concluem a respeito da similitude estrutural identificável entre as dimensões da realidade. Por exemplo, quando Pitágoras assegura que todas as coisas compõem-se de números, está asseverando uma condição básica que constitui o todo da realidade, tanto aquilo que compõe o éter quanto aquilo que compõe a terra e tudo o que nela viceja. Naturalmente se deve compreender que o pensamento pitagórico não coloca os números dentro de uma perspectiva material. Não se trata de uma concepção ontológica, e sim da tentativa de definir a ordem como fator essencial da estrutura cósmica. De fato, a existência da ordem no contexto integral da realidade é o pressuposto elementar daquilo que se expressa na tábua esmeraldina. O que está acima e o que está embaixo são concomitantes porque se encontram em estado de harmonia, e essa circunstância harmônica ocorre porque a lógica inerente a uma dimensão é igualmente válida na outra dimensão. Pitágoras inaugura na história da filosofia a constatação da ordem como princípio constituinte do universo, quer dizer, como aquilo que possibilita ao ser humano entender o que participa de seu ambiente e também o que transcende. Tudo está submetido à mesma lei, e tudo segue um compasso logicamente verificável. Se fizermos uma analogia entre o conhecimento filosófico e o esoterismo nesses termos, observaremos que existe uma relação profunda entre conceitos e linguagens.

Certamente não se nota no esoterismo a preocupação inicial de mostrar a característica lógica contida no cerne dos seus ensinamentos. Propriamente falando, os adeptos não devem ser considerados filósofos. A filosofia visa conhecer a realidade, e seu caminho desenvolve-se através da capacidade intelectual do ser humano que, sendo dirigida em uma determinada direção, dissipa as trevas da ignorância e torna a verdade conhecida. Quanto ao esoterismo, defronta-se continuamente com o mistério, e embora nesse confronto tente esclarecer muitos segredos, de fato aceita conviver com o inefável tencionando transmutar-se a si mesmo primeiramente, e transmutar também o ambiente circundante. Ocorre, às vezes, de um filósofo envolver-se com estudos esotéricos, porém, neste caso, necessita acatar a convivência com o aquilo que é insondável, submetendo-se a caminhar na escuridão carregando somente o facho da fé. Se os objetivos não necessariamente se correspondem, como será possível ter afirmado que conceitos e linguagens se relacionam? Sem dúvida, asseverei anteriormente neste ensaio que a afirmação sintetizada na tábua da esmeralda é o fundamento não apenas do esoterismo, mas de outras áreas do conhecimento. O filósofo trata objetivamente daquilo que pode ser verificado pelos sentidos, destrinchado pelo intelecto e assimilado pela memória. Para ele, o acesso à realidade primeira, dita material, consiste no pressuposto básico de seu trabalho. Não nos esqueçamos que a filosofia nasce exatamente em um contexto no qual a observação empírica do cosmos circundante causa as primeiras conclusões. Os filósofos naturalistas partem da constatação da natureza e a natureza, neste sentido, consiste no universo como um todo. Por outro lado, o esoterista desvenda os mistérios da existência humana, os segredos da criação do cosmos e do ser humano, não só se baseando no testemunho físico e experimental, mas também se valendo de uma ciência tradicional que costuma ser transmitida há séculos, e que teoricamente constitui uma herança recebida por iniciados. Muito daquilo que está contido no esoterismo não é cientificamente verificável, sendo assim, exige a crença na eficácia de fórmulas cuidadosamente conservadas. Portanto, o filósofo e o esoterista desenvolvem trabalhos com processos hermenêuticos distintos, embora subsista na raiz um fundamento comum. Pois a natureza da qual se vale o filósofo em seu método de conhecimento é regida por uma ordem interna que tem a sua fonte no mundo sobrenatural, e, neste caso, o que está embaixo (mundo natural) é o mesmo que está em cima (mundo sobrenatural), e se não devemos confundir o ofício do filósofo e o do esoterista, da mesma maneira não devemos ignorar que a ordem existente na unidade do sistema ocasiona uma espécie de paralelismo que se estabelece entre ambos.

O trecho posterior da tábua esmeraldina afirma que essa similitude entre o superior e o inferior visa realizar milagres. Se entendermos o esoterismo como a busca incessante no sentido de conquistar a síntese entre esses dois hemisférios, admitiremos consequentemente que através dessa síntese torna-se possível fluir livremente o poder sobrenatural sobre a realidade natural, engendrando nesta o fabuloso. Sem dúvida, aquele que se dedica ao estudo e à prática das ciências esotéricas convive com circunstâncias que muito frequentemente escapam à normalidade. O processo iniciático, quando efetuado com sucesso, suscita certas capacidades no indivíduo que o colocam em situação vantajosa, e nesta afirmação decerto não incluo a possibilidade de utilizar os conhecimentos esotéricos para finalidades materiais. Mesmo que aconteça, a fortuna não deve ser o termo ambicionado. Pode-se asseverar que o maior milagre de todos consiste em adquirir tamanho domínio sobre as virtudes humanas a ponto de exercer controle sobre si mesmo e sobre o ambiente circundante. Mas esse é o fim e não o princípio. No decorrer do caminho, o esoterista muito habitualmente convive com instruções simbólicas transmitidas através de sonhos, visões antecipadas de certos fatos, conhecimento infuso, habilidade de ler pensamentos ou de transformar em ato concreto uma sugestão mental. Tudo soa de maneira miraculosa – e é de fato. O esoterista crê firmemente que o fabuloso permeia a realidade, às vezes se manifestando de forma explícita, às vezes disfarçando a existência. Sua crença encontra-se baseada precisamente na constatação de que há uma fonte superior da qual procedem as coisas, uma fonte da qual decorre todo poder e autoridade, e que se acha essencialmente vinculada com a realidade material. Decifrar os mistérios que possibilitam manipular esses poderes é a missão a que todo esoterista a si mesmo propõe.

O ser humano é o que está no centro dessas duas dimensões da realidade: a superior e a inferior. Nele deve ser empreendida a síntese entre o sobrenatural e o natural, contudo, isso somente acontece como consequência de um processo constituído de três fases: purgação, iluminação e comunhão. De fato, dentre as criaturas existentes na natureza, o homem é a única suficientemente passível de unificar as características humana e divina. Há no ser humano as fragilidades inerentes à matéria, ou seja, os impulsos instintivos, o afeto dirigido às coisas passageiras, a suscetibilidade diante do sofrimento e da morte. Mas também nele existe a capacidade de transcender que brota de suas virtudes intelectuais e espirituais. Quando se restringe àquilo que é material, o homem se limita à animalidade, desviando-se de seu destino fabuloso que consiste exatamente em divinizar-se. Quando busca o caminho espiritual, menosprezando sua natureza corpórea, incorre no pecado da soberba, supondo-se exclusivamente luz, e como resultado caindo da altura em que supõe alcançar. O verdadeiro iniciado entende perfeitamente que todo o segredo está em não desprezar as duas dimensões, mas condensá-las em uma mesma criatura. Permitir que a fonte superior desça até a realidade inferior, transmutando-a. Isto sucedendo, eis que assim as portas se encontrarão abertas aos milagres, e estes ocorrerão através da ação humana em comunhão com o mundo sobrenatural. Desse modo, o homem torna-se o centro existencial da realidade, o portal de acesso à fonte primeira, o veio através do qual corre o rio celestial.

Se evocássemos novamente o contexto filosófico da Grécia antiga, ali também encontraríamos o movimento no sentido de atrair o interesse de um âmbito macrocósmico ao microcósmico, e esse âmbito microcósmico tão atraente é a alma humana. Como disse, os filósofos naturalistas inicialmente analisaram o cosmos tentando definir o princípio original que compunha todas as coisas, e nisso se revelavam fascinados pelo Todo. Foi com o advento da filosofia socrática que o interesse filosófico deslocou-se da observação celeste para a investigação do ser humano, assim tornando o homem o centro do conhecimento. De fato, no contexto esotérico, compreende-se que a realidade cósmica e a realidade humana se equiparam, distinguindo-se somente a medida estrutural de ambos, ou seja, a realidade humana reflete em escala reduzida a construção universal. Dessa forma, estudar as características da humanidade representa esquadrinhar em grau microcósmico aquilo que existe no Todo. Outra vez, a síntese da tábua esmeraldina demonstra a sua veracidade: o que está em cima (cosmos) é o mesmo que está embaixo (homem). Quando Sócrates vai ao Oráculo de Delfos, e descobre ser a pessoa mais sábia entre todas, realiza um caminho rumo ao descobrimento da natureza humana, afinal, a inscrição conhece-te a ti mesmo, ali encontrada, é claramente um convite que escancara os portais do intelecto a uma visão dos mistérios do indivíduo. O ato inicial desse conhecimento se constitui da admissão voluntária acerca da própria ignorância: Sócrates é o mais sábio entre todos os homens porque admite nada saber. Por ora, cabia-lhe esquadrinhar as variadas opiniões a respeito de conceitos como a beleza, o estado, o amor, a justiça, a sabedoria, a fim de descartar tudo o que fosse equívoco e superficial. Tendo-se esvaziado do erro, Sócrates tencionava extrair a verdade de si mesmo através do processo conhecido como maiêutica. O centro desse processo reside no fato de que todos os seres humanos carregam dentro de si a verdade, e essa verdade pode ser trazida à luz utilizando-se do expediente filosófico do questionamento. Para o propósito deste ensaio, importa observar que o pensamento grego determina a existência do que é verdadeiro não somente no contexto integral da realidade – o Todo – mas agora também na fração dessa totalidade que se constitui na alma humana. Pode-se deduzir a verdade a partir da estrutura cósmica tanto quanto é possível deduzi-la a partir do homem.

Urge admitir que o esoterismo tem muito de oracular, e com isso estou asseverando que se buscar acercar-se de seus mistérios com o intuito de neles descobrir respostas fundamentais. O oráculo desvenda segredos do passado e do futuro, mas também responde questões relativas às coisas presentes, além de descortinar a realidade daquilo que transcende. Há no fenômeno religioso o que se manifesta livremente e o que é mantido oculto à maioria – algo que somente se desvela a círculos bastante restritos. Nisto exatamente se constitui o esoterismo, ou seja, no conhecimento dito secreto, conservado assim durante um largo espaço de tempo, e transmitido entre iniciados. Pode-se afirmar, no entanto, que muitos dos arcanos esotéricos acham-se atualmente divulgados com liberalidade, e embora subsistam seitas que ainda se consideram detentoras dessa tradição ocultista, a verdade é que estudar o esoterismo não se encontra mais somente ao alcance de raríssimos privilegiados. Muitos indivíduos munidos de talento e disposição, tendo enveredado por esse ramo do conhecimento, têm a possibilidade de obter êxito considerável. Basta para isso entender inicialmente que o estudo da magia, da astrologia, da alquimia, da tarologia, etc., corresponde não somente à mera escrutinação de textos e a repetição externa de fórmulas consagradas. Trata-se, essencialmente, da tarefa de compreender os princípios da realidade cósmica em comunhão com o esforço de obter o autoconhecimento. Quando bem-sucedido, o estudioso desenvolverá capacidades extraordinárias que não devem ser o mote principal do estudo, mas que, de certo modo, confirmam a veracidade daquilo que está sendo buscado.

Sem dúvida, o acesso demasiadamente franqueado aos mistérios atraiu também indivíduos que perscrutam o conhecimento oculto e os poderes dele decorrentes motivados por vã curiosidade ou até mesmo por vaidade escancarada. De fato, atualmente existe uma cultura manifestada no cinema, na televisão e também na literatura que seduz incautos à prática das ciências esotéricas sem dar evidência aos riscos inerentes. Ocorre que esses riscos são reais, e quando não levados em consideração é possível que conduzam o praticante a um caminho destrutivo e tenebroso. Sobre essa questão em particular, o conhecido ocultista Eliphas Lévi escreve na obra Dogma e Ritual da Alta Magia: “Há uma verdadeira e uma falsa ciência, uma magia divina e uma magia infernal – isto é, mentirosa e tenebrosa –; temos de revelar uma e desvendar outra; temos de distinguir o mago do feiticeiro e o adepto do charlatão.” Não questiono a eficácia dos feitiços e dos encantos, não estou disposto a desconhecer que as trevas exercem também certa autoridade, apenas tenciono mostrar que o estudo e a prática do esoterismo não devem vincular-se a finalidades mesquinhas. De todo modo, o conhecimento verdadeiro exige necessariamente conduzir ao desenvolvimento pessoal e à maior liberdade existencial, intentos somente alcançados quando o indivíduo arroja seu olhar às alturas e escolhe seguir a luminosidade. Os que se envolvem com a feitiçaria objetivando manipular poderes naturais para fins espúrios, atuam com extremo egoísmo, e acabam encarcerados pela maldade em um ambiente sombrio. Muitas criaturas acham-se nessa situação, infelizmente, e anseio que este ensaio possa esclarecer as coisas.


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segunda-feira, 1 de maio de 2017

PREVIEW DO ROMANCE O ARCANO DA MORTE



– Confesso que entre mim e o seu marido nunca existiu contato. Foi através do noticiário que acabei tomando conhecimento desse caso trágico... Me refiro ao suicídio do doutor Aristides, naturalmente – o detetive observa a cantora com o intuito de flagrar sinais de abatimento, não obstante, a morte deixa de suscitar nela a sensação imediata de horror. Sasha Menezes parece resignada ou meramente insensível. – Mesmo assim, recentemente me aconteceu descobrir que seu esposo manteve em posse algo que durante certo tempo me pertenceu...
– Isso me surpreende – diz a cantora.
– Por quê?
– Durante anos convivi com Aristides, e sei perfeitamente que ele era bastante exigente. Gostava de mesas reservadas em restaurantes, lugares exclusivos nos teatros, roupas finas, carros de último tipo, viagens de primeira classe, e não costumava compartilhar o uso das coisas. Me diga então, neste caso, detetive, que interesse teria ele de utilizar algo que pertenceu antes a outra pessoa? Isto é um absurdo!
– O interesse eu não saberia definir, senhora Menezes. Por isso solicitei essa conversa.
– O objeto... Penso que seja um objeto...
– Sim. É um objeto de uso pessoal, algo bastante particular.
– Que seria?
– Uma carteira.
– Posso vê-la? – a cantora estende a mão.
– Sem dúvida.
O detetive entrega a ela. De imediato, algo sucede na expressão de Sasha Menezes, certa mudança significativa que dissipa a dureza insensível de antes, trocando isso pela turbação momentânea. A cantora reage finalmente, mostra instabilidade, como se houvesse uma rachadura na superfície artificial de sua aparência. Os músculos da testa contraem-se, os lábios apertam-se de forma contundente, e ela estremece de modo ligeiro, embora o bastante para ser notado.
– A senhora reconhece? – Santa Rosa questiona.
– Sim.
– Esteve com seu marido, não é?
– Eu admito realmente que Aristides chegou a usar esta carteira.
– Me diga, senhora Menezes, será que, em alguma circunstância, teve a oportunidade de abri-la?
– Para ser sincera não.
– Gostaria de fazê-lo agora? – ele sugere.
– Sem dúvida.
Outra vez a expressão de Sasha Menezes modifica-se, revelando algo de penetrante no semblante da cantora ao constatar a gravação interna no couro da carteira.
– É o seu nome – ela afirma.
– Isto mesmo. Agora observe, senhora Menezes, que seu marido não apenas utilizou algo que pertencia a outra pessoa, contrariando os costumes dele, mas também agiu assim sabendo que ali existia uma inscrição delatando essa circunstância.
– Percebo agora.
Poderia me esclarecer uma coisa? – o detetive solicita.
– Mas é claro.
– Como essa carteira chegou ao doutor Aristides?
Ela sorri, e o sorriso ardiloso e desvelado dissipa o resto da camuflagem.
– Foi um amigo de Aristides quem ofereceu a ele essa carteira.
– Como presente?
– Eu não diria isso.
– E então...
– Para ser sincera, eu nunca entendi bem o tipo de relação que os unia em amizade. O amigo apareceu de repente, nos visitou uma vez uns meses atrás. Veio jantar, e depois daquilo acredito que ambos se encontraram em ocasiões diferentes, provavelmente em outros lugares. Não suponho que tratassem de negócios e também não imagino que o homem fosse um dos clientes de Aristides. Parecia haver entre os dois um vínculo íntimo e, pelo que me consta, não fui exatamente convidada a participar da intimidade dessa relação.
– Posso saber como essa pessoa se chama?
– Aristides se dirigia a ele sempre chamando de Conde.
– Esse é o nome?
– Talvez seja – a cantora responde.
– E como descreveria o Conde? – Santa Rosa pergunta.
– Um tipo extravagante, eu diria no mínimo. Tinha ideias estranhas, me incomodou lidar diretamente com ele. Pareceu ser culto, acredito que ele tenha viajado bastante, corrido o mundo inteiro – a cantora responde. – Fisicamente atarracado. Magro. Cabelos cortados rente à cabeça. Firme de corpo sem parecer exatamente atlético.
– Por que disse que ele tinha ideias estranhas?
– Depois do jantar, acomodados na sala de repouso, o Conde sugeriu que Aristides e eu participássemos de um jogo que, naquele momento, me pareceu um tipo de encenação. A ideia consistia basicamente em trocarmos de identidade durante certo tempo. Sou uma artista de palco, e não digo que assumir outra personagem esteja distante do que estou acostumada, mas Aristides sempre se mostrou um homem sério e pragmático, nunca afeito a situações dessa natureza. Sendo assim, supus que ele não aceitaria a proposta, no entanto, o fato é que terminei surpreendida. Meu marido acatou a sugestão de imediato, e procurou desempenhar o papel com diligência, assumindo uma identidade que jamais foi a dele. Porém, antes de começarmos, o Conde afirmou ser conveniente termos um símbolo de realidade capaz de garantir a estrutura do jogo, algo que servisse como totem. Ele utilizou exatamente esse termo: totem. Foi nesse momento que apresentou a carteira, ela seria nosso totem, e deveria ficar em posse de Aristides durante a encenação. Garanto que eu particularmente não toquei na carteira, somente Aristides teve permissão. Me recordo que ele observou o totem com gravidade, analisou o exterior e o interior, e deve ter reconhecido que se tratava decerto de um artigo elegante. Desse modo, tudo começou. O Conde dirigiu a encenação: Aristides deveria encarnar inicialmente um tutor de atitudes conservadoras, o católico tipicamente tradicionalista, cheio de moralismo e severidade, em contrapartida, eu assumiria a postura de uma estudante universitária, algo ingênua e inexperiente. O curioso é que não existia nunca exatamente um roteiro. O Conde ia orientando as coisas, insinuando algumas situações, estimulando conflitos e debates, e embora eu tivesse achado muito confuso, de início, logo me envolvi totalmente no jogo, e comecei a considerá-lo estimulante. Creio que Aristides também estivesse se comprazendo, mas de uma maneira diferente, sendo rigoroso, por exemplo, cumprindo fielmente o papel designado, se submetendo aos desígnios do Conde de modo absoluto. Houve mudanças de personagens, em determinado momento, e Aristides deixou de se apresentar como católico conservador, se tornando um degenerado afeito a compromissos com mulheres de caráter leviano. E a mim me coube assumir a carapuça desse tipo de pessoa. Isso naturalmente foi um choque, porém, como aceitara participar daquilo, decidi encarnar a tal personagem que, diferente da anterior, tinha uma alcunha específica. Conforme a cena ia se desenrolando, o convidado de Aristides fomentava nele um comportamento mais agressivo, dominador, dando a entender que àquele indivíduo degenerado cabia o papel de macho dominante. Portanto, eu deveria me comportar como uma fêmea submissa. Como da vez anterior, meu marido cumpria fielmente o acordo, agindo com arrogância e me tratando rudemente. Eu, sem coragem de abandonar o jogo, suportava tudo, me esforçando por admitir uma tolerância que não é da minha natureza. Mas a verdade era que eu me encontrava já exasperada com a excentricidade do Conde, e não compreendia bem por que motivo Aristides se permitia dirigir tão tranquilamente. Por isso, em dado momento, argumentei um desconforto estomacal, e deixei a sala com o intuito de repousar no meu cômodo particular.
– E a carteira? – o detetive indaga.
– Honestamente, supus que Aristides devolveria o totem ao Conde, porém, algum tempo depois, aqui em casa, tive a oportunidade de ver a carteira sobre a mesa de trabalho do meu marido – responde a cantora. – Isso me desconcertou um tanto, recordar as encenações daquela noite, a figura extravagante do tal sujeito, a mudança de postura do Aristides...

Gabriel Santamaria é autor de O Evangelho dos Loucos (romance), No Tempo dos Segredos (romance), Assim Morre a Inocência (contos), Destino Navegante (Poemas), Para Ler no Caminho (Mensagens e Crônicas).